O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic, a taxa básica de juros da economia, em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4). Para quem investe, o recado é direto: o dinheiro aplicado em renda fixa segue rendendo bem acima da inflação, e isso continua sendo um concorrente de peso para ativos de risco como a cripto.
O BC justificou a decisão com a inflação acelerando acima do teto da meta e com um cenário externo mais hostil. O comitê não indicou quando os juros podem voltar a cair e disse que vai manter a restrição pelo tempo necessário para trazer a inflação de volta à meta.
Por que a Selic ficou parada em 13,75%?
O principal motivo é a inflação. Segundo o comunicado, tanto a inflação cheia quanto a média dos núcleos, medidas que retiram os itens mais voláteis do cálculo, aceleraram nas divulgações mais recentes. Os dois indicadores estão acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta.
As expectativas também pioraram. A pesquisa Focus, levantamento semanal do BC com economistas do mercado, aponta inflação de 5,2% em 2026 e de 4,8% em 2027. As projeções do próprio Copom são de 5,6% para o IPCA, o índice oficial de inflação, em 2026 e de 4,7% em 2027.
Para o segundo trimestre de 2028, que o BC chama de horizonte relevante, o período em que os juros de hoje fazem efeito pleno sobre os preços, a projeção subiu para 3,5%. Os preços administrados, aqueles definidos por contrato ou regulação, como energia e combustíveis, são o grupo que mais pressiona: alta projetada de 6% em 2026.
No cenário externo, o comitê citou o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, que empurra o preço do petróleo para cima, e juros mais altos nas economias avançadas. Esse quadro, segundo o BC, exige cautela de países emergentes como o Brasil.
A decisão teve os votos de sete membros do comitê, entre eles o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
O que a Selic em 13,75% faz com a renda fixa e com a cripto?
A Selic é a referência para os títulos públicos e para boa parte dos investimentos em renda fixa, como CDBs. Com a taxa em 13,75% e a inflação esperada para 2026 em 5,2%, a diferença passa de 8 pontos percentuais. Essa diferença é o chamado juro real, o ganho acima da inflação.
É aí que está o mecanismo para quem tem cripto. O Bitcoin não paga juros. Cada real mantido nele deixa de render esse retorno garantido da renda fixa. Quanto maior o juro real, maior o custo de oportunidade de ficar em ativos de risco.
O próprio Copom classificou a Selic atual como substancialmente contracionista, ou seja, alta o bastante para frear a economia. Enquanto esse cenário durar, a renda fixa segue como uma alternativa difícil de ignorar para o investidor brasileiro que compara opções.
Dólar e petróleo são o canal de risco para o real
O cenário de referência do BC parte de um câmbio de R$ 5,20 por dólar. Entre os riscos de alta para a inflação, o comitê listou uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada.
Esse ponto mexe diretamente com a carteira cripto. O Bitcoin é negociado em dólar, e o preço em reais depende também do câmbio. Juros altos no Brasil tendem a atrair capital estrangeiro em busca de rendimento, o que ajuda a sustentar o real. Se o real perder força, a cripto fica mais cara em reais mesmo sem subir em dólar. Mas um real mais fraco também alimenta a inflação e afasta ainda mais o corte de juros.
O petróleo entra na mesma conta. O BC alertou para efeitos de segunda ordem dos choques de oferta ligados ao petróleo e derivados, quando a alta dos combustíveis se espalha para outros preços e contamina as expectativas por mais tempo.
O que pode reabrir espaço para cortes na Selic?
O comitê também apontou riscos na direção oposta. Uma desaceleração da economia brasileira mais forte que a projetada, uma desaceleração global puxada pelos choques de comércio e do petróleo e uma queda nos preços das commodities poderiam aliviar a inflação.
Há sinais de que parte disso já começou. Segundo o BC, a atividade econômica moderou de forma mais acentuada, principalmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico. O mercado de trabalho continua resiliente, mas mostra sinais de desaquecimento.
Ainda assim, o comitê avalia que os riscos para a inflação são maiores para cima do que para baixo. Também disse que segue atento ao impacto da política fiscal sobre os juros e os ativos financeiros. Na prática, a leitura de que os juros ficarão altos por mais tempo é a mais coerente com o comunicado. Ela perde força se a economia desacelerar rápido o suficiente para derrubar a inflação de serviços.
O que acompanhar depois da decisão do Copom?
O próximo sinal virá da ata da reunião, que detalha o raciocínio do comitê. Depois, os dados mensais do IPCA e as revisões semanais do Focus mostram se as expectativas param de subir.
No exterior, o preço do petróleo e os desdobramentos no Oriente Médio seguem no centro do risco. No câmbio, a referência é o patamar de R$ 5,20 usado pelo BC. Há ainda um detalhe doméstico: a projeção do comitê supõe bandeira tarifária verde na conta de luz em dezembro de 2026. Uma bandeira mais cara pressionaria a inflação e reforçaria a postura de cautela.
Para o investidor de cripto, a combinação de juro real alto, real sob risco e inflação acima do teto define o ambiente dos próximos meses.
“O Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, demonstrando cautela diante da deterioração das expectativas inflacionárias e das incertezas sobre a condução da política fiscal. Embora a atividade econômica apresente sinais de desaceleração, a inflação de serviços ainda resistente, a valorização recente do dólar e o aumento do prêmio de risco brasileiro limitam o espaço para uma redução mais acelerada dos juros. O principal desafio neste momento não está apenas na política monetária, mas na necessidade de medidas fiscais consistentes que permitam estabilizar a trajetória da dívida pública e recuperar a confiança dos investidores. Sem um ajuste estrutural das contas públicas, o Banco Central poderá ser obrigado a manter os juros elevados por mais tempo para compensar os riscos inflacionários e a desancoragem das expectativas. A manutenção da Selic reforça a importância de uma coordenação entre as políticas fiscal e monetária, pois não é sustentável exigir que apenas os juros controlem os desequilíbrios econômicos. Para o mercado, a decisão mantém a atratividade dos investimentos pós-fixados, enquanto os títulos prefixados e indexados à inflação continuam oferecendo prêmios elevados, mas sujeitos à volatilidade dos juros futuros. Já para as empresas, a permanência de um custo de crédito elevado tende a limitar novos investimentos e a recuperação da atividade. Uma trajetória consistente de queda da Selic dependerá principalmente da melhora das expectativas de inflação, da estabilização cambial e de uma sinalização fiscal crível, capaz de reduzir os prêmios de risco e permitir juros estruturalmente menores”, Gustavo Assis, CEO da Asset.











